Serendipidade e inovação

serendipidade e inovacao

Um dos estudos que venho realizando desde 2016 é sobre a exaptação. Para quem não conhece, é uma técnica empregada por empreendedores para inovar. Ao contrário da adaptação, na qual ajustamos um determinado produto para outro uso, na exaptação mantemos o mesmo uso do produto e procuramos outra função para ele.

Um alpinista, por exemplo, pode se adaptar para escalar os mais variados tipos de montanhas, mas, quando ele exapta, busca outra função para suas habilidades e se torna, por exemplo, lavador de fachadas de edifícios.

A exaptação traz uma nova perspectiva para tudo o que fazemos e vem inspirando a evolução de novos produtos que saem de suas funções originais. O Viagra é um dos exemplos mais comuns: originalmente foi concebido para o tratamento de hipertensão arterial, porém pesquisadores descobriram que o efeito colateral do citrato de sildenafila é enrijecer certos músculos, como o peniano.

A História está repleta de inovações da mesma natureza, a penicilina e o micro-ondas são outros exemplos famosos. O que existe em comum entre todas elas é a descoberta casual, quando se está investigando um determinado efeito e acaba se descobrindo, por acaso, outros inesperados.

Assim, enquanto um empresário do ramo da limpeza buscava contratar funcionários para se arriscarem a lavar fachadas de edifícios, provavelmente deve ter se deparado com um vídeo de alpinismo ou conversado com um desses atletas e, então, a ideia começou a fluir.

O micro-ondas surgiu quando Percy Spencer viu que sua barra de chocolate derreteu no seu bolso durante um teste de radares e ficou intrigado com o fenômeno. Começou a pensar para que aquilo poderia ser útil.

Também foi durante um erro na cultura de uma bateria de testes de um antibiótico que Alexander Fleming notou a camada de isolamento de fungos que chamou de penicilina.

A serendipidade

Muitas das grandes descobertas provavelmente aconteceram porque erros não foram ignorados, mas sim tratados como algo apenas inesperado e um estímulo à curiosidade. Esta capacidade é conhecida como serendipidade e é uma das características fundamentais a empreendedores que desejam alcançar a inovação de alto impacto.

A serendipidade é um traço cada vez mais raro nos dias de hoje. Nosso sistema educacional é formatado para evitar o inesperado. O planejamento detalhado e minucioso procura antecipar todas as condições que tenham potencial de desviar a atividade do foco desejado e, consequentemente, mata as possibilidades de encontrar o diferente.

Praticar a serendipidade significa, antes de tudo, estar aberto a fazer as coisas sem planejamento, de forma aleatória e improvisada. Em segundo lugar, ela depende do “abraço ao impensável” como algo bom que pode ser aproveitado. Em terceiro lugar, requer que a mente esteja aberta a novas possibilidades, combinações, funções e caminhos.

Quantas vezes tratamos o inesperado como indesejado? Ignoramos desconhecidos tentando puxar conversa, porque estamos esperando um amigo? Lamentamos não encontrar uma marca no supermercado ao invés de experimentar uma similar?

Quantas vezes reclamamos de um acidente de trânsito que nos fez desviar da rota que estamos acostumados? Amaldiçoamos a companhia de luz quando acontece um blackout? Quantas oportunidades perdemos de conhecer pessoas diferentes, caminhos interessantes ou simplesmente o prazer de tomar um banho gelado em pleno verão?

Na prática

Mesmo sem querer, já usei bastante a serendipidade e eis alguns exemplos: certo dia, devido a um compromisso inesperado, não tive tempo de preparar a minha aula do dia seguinte. Tive que improvisar. Como tenho bastante repertório, não foi muito difícil conduzir desta forma.

Foi uma conversa aberta, sem livros, sem testes, apenas compartilhando ideias e deixando os alunos participarem de forma espontânea e casual com suas perguntas que fluíram para caminhos inesperados, intrigantes e provocadores. No final, os estudantes falaram que foi a aula que mais aprenderam.

Em outra ocasião, fui ministrar uma palestra em uma universidade fora de São Paulo e acabei me perdendo na volta, indo parar em uma pequena cidade, perto de Campinas, chamada Pedreira. Acabei conhecendo o local, adorei e voltei para casa cheio de louças.

Uma vez, quando trabalhava no Citibank, estava com a equipe inteira reunida para resolver um problema no sistema de data por ocasião do projeto Y2K (o bug do milênio, quando todos os computadores iriam travar na virada de 1999 para 2000).

O código fonte estava corrompido e não tínhamos mais nenhuma referência para saber como o programa (de 1983) havia sido desenvolvido originalmente. Com base apenas nas entradas de dados e nas saídas dos resultados, tivemos que imaginar o que ele fazia e reconstruir tudo do zero.

Levamos duas semanas desenvolvendo isso com repetidos testes, para garantir que tudo daria certo. Depois de muito esforço e aprendizado com os erros, o sistema acabou vingando, mas o que valeu mesmo foi a descoberta de algo novo, na época, chamado de engenharia reversa que acabou se tornando um padrão para a substituição de sistemas legados em toda a América Latina.

Durante o meu doutorado, eu tinha direito a um orçamento para participar de eventos acadêmicos da área, mediante aprovação da diretoria do programa. Uma das conferências era a de maior prestígio nos EUA, mas o coordenador do programa demorou para me autorizar e acabei perdendo o prazo de inscrição.

Meu orientador, sabendo da minha frustração, me indicou outro evento similar que aconteceria na Finlândia. No começo, eu não quis nem saber, pois o evento era menor e de pouco prestígio, mas, por outro lado, o meu orçamento já estava autorizado e seria um desperdício não usá-lo.

Resolvi ir ao evento e ao consórcio doutoral que fazia parte do programa. No final, foi um dos melhores eventos que já participei e me valeu quase que todo o doutorado, até porque foi conduzido por dois professores americanos que eu pretendia conhecer no evento dos EUA.

E você? Quais são os seus casos fortuitos? Você verá que tem muita coisa que acontece na nossa vida de forma inesperada, porém com ótimos resultados. Aprenda a transformar o imprevisível em descoberta. Aprenda a identificar oportunidades nas incertezas.


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Marcos Hashimoto

Professor de Empreendedorismo da Universidade de Indianapolis e co-fundador da Polifonia, escola de Protagonismo Criativo de São Paulo.


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