19/12/2017

Segurança ou risco?

bicicleta estacionada segurança ou risco

Esta semana me lembrei de quando me dediquei a ensinar minha filha a andar de bicicleta sem as rodinhas de apoio. Não foi fácil. Minhas costas que o digam. Não tenho mais idade para correr segurando uma bicicleta por trás. E eu diria que a maior dificuldade que ela encontrava era a confiança em sua própria capacidade de conseguir se equilibrar sozinha.

Ela não precisava mais das rodinhas – era evidente o seu equilíbrio – porém não se arriscava a andar sem. As rodas configuravam o seu apoio psicológico, suas “muletas”. Sem elas, todo o peso do insucesso, do fracasso e da incerteza recaía sobre suas costas, causando, invariavelmente, dores físicas também. Sabemos o que é isso. Também temos nossas próprias “muletas”, essas “rodinhas de apoio” que nos mantém firmes na segurança do passado, mas que nos impedem de crescer e evoluir.

Por isso mesmo, até que compreendi bem sua resistência natural e inevitável: “Por que tirar as rodinhas, pai? Eu ando bem com elas!”. Não dei muita atenção, pois logo surgia a imagem de uma mulher adulta andando de bicicleta ainda com apoios. Todas as amigas dela já andavam sem e só a convenci quando comecei a falar de uma: “Olha, a sua amiga Vitória, que é menor e mais nova que você, já anda sem. Você vai ser a única a andar como criancinha?”. Bingo! Infalível! Ela resolveu tentar.

Mas o medo ainda era mais forte. Por mais que eu tentasse tranquilizá-la dizendo: “Calma, pode ir firme que o pai está segurando”, ela não se sentia segura. Titubeava e pedia para parar, chorando e querendo desistir:

– Não, filha, você não vai desistir, eu estou aqui para te segurar.
– Mas, pai, eu não consigo.
– Como não consegue? Como pode falar que não consegue, se ainda nem tentou?

Eu sabia que, se parássemos naquele momento, ela demoraria para retomar a coragem e superar o trauma do fracasso. Tinha que ser naquela hora, era o momento apropriado.

Você já tentou?

Muitas vezes, temos medo de nos arriscar em empreitadas mais arrojadas. Preferimos a segurança de nossas próprias rodinhas (leia-se: “emprego”). O pior é que nem sempre podemos contar com o suporte de um pai ou de uma mãe que nos dê apoio, coragem e incentivo. Tampouco podemos contar com informações precisas sobre o momento certo para “tirar as rodinhas”, e muitos fracassos acontecem por conta dessa falta de percepção.

Também não tentamos por causa da maldição do “não consigo”. Declarar a falta de competência é geralmente a desculpa mais usada pelos fracassados e preguiçosos, dos que desistem rápido ou nem sequer tentam. Às vezes, nem mesmo você pode dizer se consegue ou não. Quando possível, temos que tentar, mesmo se for para fracassarmos e nos assegurarmos que de fato não conseguimos. O fracasso, para empreendedores, é a energia que faz a dificuldade ser vista como desafio. Essa energia gera a determinação para insistir até conseguir.

E quanto à minha filha? Bem, continue andando atrás dela, segurando-a para que não caísse, ainda na tentativa de lhe dar segurança – mas, quando percebi que eu estava assumindo o posto de “rodinha”, sobretudo quando a vi rir e pedir: “Vamos pai, mais rápido!!!”, com os bofes de fora, achei que era a hora: “Está bem, pode ir!” e soltei-a.

Ela pedalou mais forte e não se deu conta, por alguns longos segundos, que nada mais a mantinha equilibrada, senão a força de suas pedaladas. Avançou uns 10 metros e, então, se virou, viu que eu não estava mais lá, balançou e quase caiu, mas restabeleceu o equilíbrio e gritou triunfante: “Consegui! Consegui! Viva!”.

Que nada, minha filha, quem conseguiu fui eu! Tenho certeza que, se tivesse mais fôlego, eu continuaria empurrando a bendita bicicleta. Vocês pensam que é fácil ser pai? Que é fácil soltar a bicicleta sabendo do risco do seu maior patrimônio ir por terra? Se eu pudesse, seguiria segurando a bicicleta até ela se cansar de andar. Mas eu sei que não pode ser assim, que temos que soltar nossos filhos quando é chegado o momento.

Arrisque-se!

Um grande amigo meu, dono de uma confecção, está preparando seu filho para assumir os negócios. O filho já se encontra preparado – eu e todos os que o conhecem sabemos disso. O resto do aprendizado só virá quando ele for exposto sozinho às situações do dia a dia.

Mas o pai ainda reluta em deixá-lo tomar decisões por conta própria, chegando a me confessar: “É fogo ser pai! Não queremos nunca que nossos filhos se dêem mal e desejamos sempre protegê-los. Eu sei que preciso largá-lo agora, mas algo dentro de mim ainda vê uma criança na minha frente, não um homem”.

Só para continuar a analogia da bicicleta eu diria a ele agora: “Tudo o que você está fazendo é segurar a bicicleta para o seu filho. Do seu lado, o esforço é maior, ao mesmo tempo que, para ele, só fica a sensação da velocidade diminuindo e, com isso, o ímpeto, a energia e a disposição que nem sempre voltam. Logo, você se dará conta do atraso que está impondo a ele. Quantas vezes você não caiu e esfolou o joelho enquanto tentava andar de bicicleta? Cair faz parte, tanto quanto se levantar e tentar novamente. Quem não corre riscos no seu negócio está, na verdade, correndo um perigo maior, o risco da paralisia, mas que ainda não percebeu”.

Data da última atualização: 30/08/2018


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Marcos Hashimoto

Professor de Empreendedorismo da Universidade de Indianapolis e co-fundador da Polifonia, escola de Protagonismo Criativo de São Paulo.


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