Resiliência, a irmã da serendipidade

resiliência e serendipidade

Esta é a história que quero contar hoje:

Depois de se formar em Relações Públicas, a jovem Eduarda não sabia o que fazer. A situação econômica não era boa e as empresas não estavam contratando em sua área. Ela estava disposta a vender o carro e juntar suas economias para investir em uma pós-graduação.

Dedicando um tempo para analisar as alternativas e fazer as contas, decidiu fazer um MBA em uma renomada faculdade paulista. Ao levantar a documentação necessária, Eduarda se surpreendeu com a notícia de que ainda tinha pendências com a sua Universidade para obter o diploma: as horas de estágio obrigatórias do curso.

Ao ver que o cumprimento dos requisitos a fariam perder mais um ano, ela não se perdoou por ter sido tão negligente e lamentou muito ao ver seus planos afundarem.

Eduarda compartilhou suas dores e frustrações com os seus amigos e um deles lhe perguntou: “Porque você faz questão de uma pós?” Então, ela explicou que precisava melhorar seu currículo com uma formação diferenciada para, assim, aumentar suas chances de conseguir um emprego na sua área.

O que seu amigo respondeu ficou reverberando em sua mente por alguns dias: “E quem disse que uma pós é o único caminho para conseguir esta formação?”

Oportunidades

Em uma das visitas que fez à Universidade, para tentar resolver seu problema, se deparou com um evento sobre inovação com um empreendedor chamado Eric Faria. Para passar o tempo até o horário de sua reunião, Eduarda resolve dar uma olhada na palestra.

Eric falava de seu negócio, o Worldpackers – um sistema colaborativo de albergues e pousadas no qual os viajantes, a maioria mochileiros, trocam diárias por serviços. O modelo soou bastante interessante a ela, que começou a pesquisar sobre o tema e a empresa.

Eduarda achou cativante a oportunidade de realizar o seu sonho de conhecer a Europa com baixo custo. Depois de buscar tais possibilidades e fazer algumas contas, viu que podia usar o esquema deste programa para guardar uma boa grana.

Trocou a hospedagem pelo trabalho na recepção – onde ela tinha uma vantagem por sua formação -, que também a ajudou a conhecer muitas pessoas e lugares. Foram 4 países em três meses, uma experiência que abriu sua mente de uma forma que nenhum MBA faria.

Uma destas pessoas que ela conheceu foi um hóspede especial, Paolo, arquiteto italiano e também recém-formado. Para encurtar a história, Eduarda casou-se com ele e hoje vive em Florença, tem dois filhos e um bom emprego na área de comércio internacional de uma indústria de máquinas de embalagem.

Flexibilidade ou resiliência?

Já falamos aqui sobre a importância da serendipidade no desenvolvimento de nossas competências para a identificação de oportunidades. Foi a espontânea curiosidade de Eduarda que a levou a descobrir, por acaso, o Worldpackers, agente fundamental em toda a sua história de vida.

Uma outra palavra especial que acompanha a serendipidade é a resiliência. Por muito tempo, a comunidade de negócios valorizou a flexibilidade como uma competência básica para se adaptar com rapidez à dinâmica revolução do ambiente econômico que marcou a década de 80 em todo o mundo.

Desde a virada do milênio, entretanto, a resiliência trouxe uma abordagem mais pertinente da flexibilidade para os desafios enfrentados, tanto por empresas, como por governos e pessoas.

Ao contrário da flexibilidade, que pode ser interpretada como a capacidade de adequação às novas circunstâncias, a resiliência é uma forma específica de adaptação quando a circunstância é particularmente adversa.

Eduarda seria flexível se tivesse que adequar seus planos para fazer outro curso no lugar do MBA, alterando um pouco sua intenção original. Contudo, ela foi resiliente ao aceitar que todo o seu planejamento de pós não era necessariamente o único caminho para aprimorar sua formação. Ao invés de contornar o problema para atingir seu objetivo, Eduarda questionou sua própria meta.

É isso que pessoas com resiliência fazem: indagam a natureza de seus propósitos, procuram um significado para o que fazem e, diante de circunstâncias adversas, que impedem ou dificultam a execução de seus planos, questionam todo o contexto e buscam novos significados e caminhos para atingir suas intenções maiores.

Intensidade e frequência

A resiliência pode ser entendida como a capacidade de se adequar a uma situação adversa e pode ser avaliada em termos de intensidade e frequência. Continuando com o exemplo de Eduarda: abandonar o plano do MBA em favor de uma viagem pela Europa é uma mudança de grande envergadura na sua vida, portanto, resiliência de intensidade.

Agora, se o problema fosse mais simples e Eduarda logo resolvesse, para na sequência encarar outras barreiras com persistência, isto demonstra resiliência de frequência – em outras palavras, a tenacidade de aguentar adversidades.

É famosa a metáfora do carvalho que bravamente tenta resistir ao vento forte como a figura de rigidez, e a flexibilidade do bambu que verga ao sabor do vento, mas não quebra. A resiliência do bambu pode ser observada na sua capacidade de aguentar lufadas cada vez mais fortes e continuar intacto.

A resiliência não é algo que a pessoa tem ou não tem. Todos somos resilientes – alguns mais, outros menos. A melhor forma de descobrir é estudar nossa reação diante de uma situação muito difícil, como a perda de um familiar próximo, uma demissão ou um acidente.

A resiliência não quer dizer que a pessoa aceita bem a adversidade. O sofrimento e a dor são comuns e, no final, todos acabam se recuperando, mas os resilientes se recuperam logo.

Muitas vezes, é a serendipidade que ajuda nesta recuperação, quando prevalece o pensamento do tipo: “De que adianta chorar? Nada vai mudar o que aconteceu, mas eu posso mudar o que vai acontecer.”

Aceitar que o que sucedeu é necessário para se abrir a novas perspectivas como a que se descortinou para Eduarda – é uma forma positiva de ver a adversidade, até porque, a alternativa é a depressão e o padecimento.

Afinal, você prefere continuar sofrendo ou abraçar a oportunidade que pode te levar a conhecer o/a italiano/a que vai mudar sua vida?


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Marcos Hashimoto

Professor de Empreendedorismo da Universidade de Indianapolis e co-fundador da Polifonia, escola de Protagonismo Criativo de São Paulo.


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