Qual o seu propósito na vida?

Pensar no propósito da vida, homem refletindo em frente ao mar

Muita gente ainda me pergunta, até hoje, por que decidi sair do mercado financeiro em 2001, em uma guinada radical rumo ao negócio próprio. Jovens profissionais, em início de carreira, não compreendem o que leva uma pessoa a abandonar uma posição gerencial em um grande banco americano para se arriscar na incerteza de uma empresa de internet. Quem viveu o “boom” da primeira onda da internet no mundo compreende este tipo de decisão facilmente.

Muitos colegas, em posições até mais estratégicas no banco, também mergulharam de cabeça na chamada Nova Economia, e essa sempre foi a minha resposta, até que o colega Robert Wong explicou seu conceito da pirâmide de carreira há alguns anos – um conceito que explica muito das decisões aparentemente irracionais que tomamos na vida, com relação aos rumos de nossas carreiras.

Trabalho

Na minha livre adaptação desta pirâmide, posso dizer que as pessoas passam por fases diferentes em suas trajetórias de carreira de acordo com suas necessidades. Assim, no começo, as pessoas precisam de alguma forma de remuneração, qualquer forma de ganho que possa atender suas necessidades básicas de sobrevivência: se alimentar, se vestir e ter algum lugar para dormir. Este primeiro degrau da pirâmide é o Trabalho.

Muitas pessoas com pouca ou nenhuma qualificação sobrevivem nesse esquema como serventes de pedreiro, camelôs, vendedores autônomos, ajudantes de cozinha e outras atividades informais e de baixa remuneração.

Emprego

Logo eles conseguem formalizar sua condição e passam para o outro nível da pirâmide: o Emprego. A característica do emprego é que a atividade executada em troca de um salário é reconhecida formalmente com registro na carteira profissional e todos os direitos legais relacionados. Justamente esses direitos é que garantem o atendimento de outra necessidade básica das pessoas: a segurança.

Estão nessa categoria as secretárias, os office boys, os porteiros, as empregadas domésticas, operadores de caixa e outros, em que a qualificação determina a remuneração. Estes dois primeiros degraus da pirâmide cobrem a maior parte das atividades da população economicamente ativa.

Profissão

Os jovens que prosseguem com seus estudos e conseguem acesso a uma faculdade têm condições de dar mais um passo nesta pirâmide: a Profissão. Um diploma superior atesta um grau de conhecimento ou habilidade específica bastante valorizado pelas empresas e pela sociedade em geral, refletido na remuneração como mão de obra qualificada.

O crescimento de ofertas de vagas por instituições de Ensino Superior, desde o final do século passado, abriu essas portas para muito mais jovens no Brasil, seja pela popularização da formação científica até a ascensão do ensino profissionalizante – até então limitada ao ensino médio. Com isso, um número cada vez maior de profissionais de Hotelaria, Turismo, Terapia, entre outros, se juntam aos advogados, engenheiros, economistas e médicos.

Carreira

Se para você não basta ter um emprego na sua profissão, mas alçar posições hierárquicas mais altas na organização (quando for o caso), provavelmente você está tentando acessar o próximo degrau da pirâmide: a Carreira em si. Para muitas pessoas, ter um diploma superior é apenas o primeiro passo. O objetivo delas na verdade é maior, elas querem crescer na sua profissão e é aí que surgem os cargos e promoções. Um Analista de Sistemas quer se tornar Analista Senior, depois um Gerente de Sistemas e, então, um Diretor de Informática.

A remuneração cresce na mesma proporção, ampliando a possibilidade de atender mais necessidades, desejos e sonhos. Nada mais natural, portanto, que as pessoas acreditem que a Carreira seja a etapa final da pirâmide. Afinal, o que mais pode existir para quem chegou à Presidência de uma grande empresa multinacional?

Era exatamente isso que eu pensava até me deparar com algumas frustrações no emprego, que se tornavam maiores à medida em que me aproximava ao tão desejado “topo organizacional”. Eu percebia que as altas esferas da organização jogavam um jogo que eu não queria jogar, um jogo baseado na política, nas relações de influência, na manipulação do poder que se aproximava perigosamente do limite da ética e do que é certo.

A cada episódio semelhante que acontecia comigo ou com pessoas próximas, eu questionava se aquilo era mesmo para mim. Eu não via alternativa, pois no mundo corporativo, assim como na política, ou você aprende a jogar o jogo do poder ou você abandona o jogo.

O chamado do empreendedorismo foi o meu despertar. Essa aventura do negócio próprio que se juntava à onda da internet, recheada de histórias empolgantes de jovens se libertando das amarras corporativas com o ótimo desempenho de nossa equipe em uma competição internacional de planos de negócios pela FGV em São Paulo (ano 2000), quando fiz o meu Mestrado. A oportunidade de construir o meu próprio destino, sem depender de um emprego, chefes ou regras burocráticas, me parecia fazer todo o sentido do mundo naquele momento.

Propósito

E foi o trilhar desta nova carreira que me mostrou, mesmo sem saber na época, que existe mais um degrau na pirâmide. Nesse degrau, você não está em busca de mais um cargo e, sim, de um significado para sua vida. Este é o degrau do Propósito, quando seus objetivos profissionais estão intrinsecamente ligados com seus objetivos de vida – quando você busca, pelo seu trabalho, realizações que façam sentido com o que você acredita, defende e valoriza.

Para muitos felizardos, seu propósito de vida está em sua carreira, mas para outros indivíduos, como eu, é preciso dar uma guinada na vida e sair da trilha da carreira para buscar seu verdadeiro caminho, seja pelo negócio próprio ou qualquer outro projeto de vida. Para alguns, o caminho espiritual, para outros, uma realização pessoal como escrever um livro e ainda, para muitos, se dedicar a algum projeto social.

Essa mudança não é fácil, é preciso coragem para abandonar tudo e recomeçar do zero, mas no fundo nada é perdido. Tudo o que você construiu na sua carreira, sua experiência, seus contatos, seu conhecimento, suas habilidades e competências, tudo isso é aproveitado no novo caminho. No começo, você se sente perdido, por estar fora da sua zona de conforto. Mas com o tempo, a certeza de que a mudança era inevitável e que você era infeliz vai trazendo alento e segurança à escolha feita.

Empreendedores possuem, em geral, este senso de missão desenvolvido de forma mais apurada e forte. Muitos dos fundamentos que os movem em seus empreendimentos e explicam sua determinação e persistência, estão embasados em uma visão de futuro bem consolidada e um senso de propósito claro e maior do que o mero ganho financeiro.

O desejo de ter um negócio próprio foi a força que me tirou do mundo corporativo, mas foi no mundo acadêmico que encontrei o meio para me sentir realizado e completo. E foi estudando a vida de empreendedores, sociais ou de negócios, como Mandela, Assange, Liberte, Gates, Yunus, que percebi o que é uma vida com significado e como o desejo de deixar uma marca, criar um impacto ou simplesmente fazer o bem em grande escala vem me inspirando a cada dia: seja levando esse despertar a outros jovens no mundo, por meio de meus artigos e livros, seja pelas minhas aulas e palestras ou pelas organizações que crio.

Interrogue-se

Diante disto, talvez seja a hora de se questionar: qual a direção que sua carreira está tomando? Essa trajetória vai te trazer autorrealização? Você vai se sentir completo quando chegar no topo de sua carreira? Para fazer esta autoanálise, lembre-se de tirar o dinheiro e o poder da frente, pois podem estar encobrindo sua visão para o que é verdadeiramente importante na sua vida.

Não se esqueça: em algum momento no passado estes pontos eram de fato importantes na sua vida, mas à medida em que sua carreira se desenvolve e as necessidades vão mudando, esses mesmos pontos passam a perder importância para que outras prioridades se revelem. Se você não sabe o que pode ser mais importante do que dinheiro e poder, está na hora de começar sua própria jornada de autoconhecimento.


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Marcos Hashimoto

Professor de Empreendedorismo da Universidade de Indianapolis e co-fundador da Polifonia, escola de Protagonismo Criativo de São Paulo.


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