26/09/2018

O perigo de ser mindlessness

o perigo de ser mindlessness

Pode fazer o teste: pergunte para seus amigos e colegas de trabalho como está a vida e conte qual o percentual de pessoas que estão tranquilas, sem estresse e com tudo em dia. Não há dúvidas, o nosso comportamento diário mudou muito nas últimas décadas.

Antes dos celulares, poucas pessoas conseguiam entrar em contato com você quando queriam – invariavelmente tinham que deixar um recado e esperar o retorno. Hoje se alguém não responde imediatamente uma mensagem sua no WhatsApp, logo imagina-se que deve ter acontecido alguma coisa séria.

É muito fácil, portanto, se sentir sobrecarregado com a pressão do dia a dia, não só no trabalho, mas na vida pessoal. Responder a todos os e-mails, checar os posts das redes sociais, ler as newsletters que você assina… até mesmo comprar um simples par de meias na internet pode ser uma tarefa extremamente complicada (acabei de comprar um há pouco e levei quase uma hora!).

Em algum momento, você deve se perguntar: com tudo isso, será que estou realmente vivendo minha vida?

O fardo de tentar ser multitarefa

Você pode ser uma destas pessoas que tem orgulho deste ritmo e se autoproclama multitasking – aquele que pode lidar com muitas coisas ao mesmo tempo. Verdade? Provavelmente não. A multitarefa é uma ilusão, porque todos têm apenas um cérebro e este só pode processar uma coisa de cada vez.

Esta ilusão é criada porque nós particionamos as tarefas em atividades menores e lidamos com uma de cada vez, dos vários afazeres diferentes. Como resultado, não conseguimos mais nos desconectar deste modo de pensar.

Quando tentamos relaxar somos pegos com frequência checando mentalmente nossas listas de pendências e o que devemos fazer depois de “relaxar”, ou nos distraímos o tempo todo e não conseguimos ficar sem fazer nada.

Mas, afinal, por que precisamos dessa pausa? Por que é importante ter esses momentos?

Estudos científicos provaram que a falta desse hiato afeta nossa percepção e cria bloqueios mentais à criatividade. Pior do que a falta da folga é a falta de consciência sobre essa necessidade. A ilusão de que estamos trabalhando a capacidade plena é um grande perigo à produtividade.

Os riscos do piloto automático

Um estudo de Harvard mostrou que vendedores que repetem mecanicamente o mesmo discurso de vendas fazem significativamente menos vendas do que aqueles que são estimulados a falar algo minimamente diferente.

A expressão que está cada vez mais presente nas discussões sobre estresse no trabalho e que reflete esta sensação de estar no automático é mindlessness – que pode ser traduzida como “mente vazia”.

Veja um exemplo clássico: quando você acorda de manhã, qual é sua rotina? Provavelmente algo parecido com isso: abre os olhos, se levanta, se alivia no banheiro, escova os dentes, penteia o cabelo, troca de roupa, toma café e vai para o trabalho, certo? Mas quanto dessa rotina você realmente se concentra para fazer? Acredito que muito pouco.

O processamento automático exibe um padrão que se repete em outros hábitos – dirigir para o trabalho, tomar banho e por aí vai. Assim como os vendedores da pesquisa de Harvard, você também embarca no caminho mindlessness de não refletir sobre o que faz.

Está certo, concordo que a rotina tem seu apelo. É um privilégio poder fazer algumas atividades sem pensar, é confortável não ter que se preocupar com os detalhes diários. No trabalho você já repetiu tantas vezes a mesma tarefa que já entendeu qual é a forma mais eficiente de fazer, então para que mudar? É como o carro sem motorista, atingir bons resultados sem precisar se atentar. E é justamente por isso que a falta de pensamento é perigosa.

Responda rapidamente: “A mãe de Maria tem quatro filhas, Lalá, Lelé, Lili e ______ ?” Tudo bem, não se sinta culpado se respondeu Loló ou Lulu, pois é a isto que o pensamento automático nos leva. Mas, se você prestar atenção, verá que a conclusão é “Maria”. É muito mais fácil replicar padrões, assim reserve sua capacidade mental para questões mais importantes.

O problema é que, acostumando o seu cérebro a ser preguiçoso, quando precisar dele para uma tarefa mais complexa, ele não vai te dar o retorno que você espera, só saídas padrões e fáceis vão surgir. Invariavelmente não são as melhores respostas ou sequer são suficientes para resolver alguns dilemas.

O poder do mindfulness

Se o comportamento mindlessness é a nossa resposta para conseguir lidar com a correria e os excessos diários, como sair dessa armadilha? Como criar essa pausa que quebra a rotina e chacoalha nossa mente para sair da letargia? Como ser mais mindfulness?

A mudança não é fácil, mas o começo é acessível a todos. Deixe-me propor um exercício simples que, se praticado com frequência e estendido para outras tarefas da sua rotina, poderá mudar a sua vida. Escolha uma tarefa qualquer que você costuma fazer mindlessness, como escovar os dentes.

Reserve o dobro do tempo que normalmente usa para fazê-la automaticamente. Comece com a pasta de dente. Veja quanto coloca e por onde aperta o tubo. Agora observe a escova, veja cuidadosamente todos os detalhes, as cores, o formato, as condições das cerdas, a textura. Pense em que lugar da boca vai começar a escovação.

Abra a boca e tente acompanhar cada movimento no espelho. Sinta as cerdas tocando os dentes e a gengiva. Perceba a língua passeando pela boca, dando espaço para a escova trabalhar. Atente-se ao ângulo que o seu braço faz e ao movimento da mão. Tente escovar um dente de cada vez.

Parece simples, mas não é, porque a sua impaciência vai te martelar a mente. Pensamentos vão tentar ocupar o espaço da sua concentração na atividade. Vai ser difícil conseguir não agilizar a escovação depois da primeira metade do processo. A racionalidade vai te cutucar o tempo todo, dizendo para parar de fazer papel de idiota e terminar logo esta besteira.

Acredite, mantenha-se firme. No começo você não entenderá nada, mas com o tempo começará a prestar atenção em pequenos detalhes desta ação. À medida que este comportamento se estender para o banho, refeições e outras rotinas, sua memória consequentemente melhorará, bem como a sua concentração e criatividade.

Combata o mindlessness! Pense, quebre a rotina e tire seu cérebro da letargia – seu futuro e sua carreira agradecerão.

Data da última atualização: 21/09/2018


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Marcos Hashimoto

Professor de Empreendedorismo da Universidade de Indianapolis e co-fundador da Polifonia, escola de Protagonismo Criativo de São Paulo.


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