05/04/2017

O lado bom da crise

Como vencer a crise no empreendorismo

Não vou abrir minha coluna hoje falando de estatísticas para comprovar aquilo que todo mundo já sabe e que os economistas podem afirmar melhor do que eu. Estamos em crise.

Para você que está pensando em abrir um negócio novo, não vou relembrar que onde há crise, há oportunidades, pois já explorei este aspecto em entrevista há mais de 10 anos.

Se, por outro lado, você já tem um negócio próprio, a crise também tem seu lado bom. E vou explicar alguns motivos para olhar com bons olhos este difícil momento que a maioria dos empreendedores do país estão passando.

Seleção

A crise é um filtro natural que elimina o ruim e deixa o bom. Sabe aqueles momentos em que você ficava se martirizando pelo dinheiro gasto com treinamento de funcionários, por ter que trocar um produto para atender uma reclamação do cliente, por causa da alta carga tributária ou pagando consultores para organizar suas finanças? Bem, este é o momento de colher os frutos que você semeou.

Na crise, apenas os fortes sobrevivem. Todos os seus concorrentes que não administraram bem seus caixas, sonegaram, não investiram no relacionamento com os clientes e funcionários ou menosprezaram seus controles agora estão prestes a deixar o mercado para você. Lembre-se: a demanda por produtos e serviços continua, portanto o importante nestas horas é sobreviver por mais tempo que seu concorrente. Quem aguentar mais ficará com o mercado do outro.

Aprimoramento

A crise nos obriga a fortalecer nossos pontos fortes, minimizar os efeitos negativos dos pontos fracos e buscar eficiência na exploração máxima de recursos escassos. Em momentos de bonança é fácil desperdiçar, ignorar clientes ruins, trocar de funcionários, obter empréstimos e tolerar fornecedores ineficientes.

Ambientes econômicos favoráveis tornam as pessoas lenientes e preguiçosas, assim como os negócios. Na crise, por outro lado, precisamos melhorar nossas operações, reter clientes, reduzir custos e explorar nosso potencial máximo para sobreviver. Somos mais zelosos com nosso patrimônio, cuidamos melhor dos recursos e prestamos mais atenção nas métricas de desempenho. Com a crise, nos tornamos melhores.

Questionamento

A crise reforça nossos valores e nos faz rever conceitos. Em muitos casos, diante de uma perda de clientes, uma queda nas receitas ou outro indicador de desempenho ruim, somos capazes de repensar nosso negócio e analisar se tudo isso faz sentido para nossas vidas.

Muitas vezes, o sucesso nos torna escravos do negócio que criamos. Com o crescimento, a empresa acaba se transformando em algo diferente e nem sempre estamos satisfeitos com os rumos tomados – mas não ousamos mudar porque está dando certo e tudo segue prosperando.

A crise é uma das poucas oportunidades que surgem para revermos o nosso futuro. Muita gente critica empreendedores que vendem suas companhias em tempos difíceis, mas não devemos fazer juízo de valor sem saber o que está por trás deste tipo de decisão. Se o negócio não faz mais sentido para o empreendedor, ele não tem motivo para continuar e a venda pode ser a decisão mais sensata a se fazer.

Inovação

A crise estimula nossa criatividade. Nossas melhores ideias não surgem quando estamos inspirados ou com todos os recursos na mão, nem quando queremos ou achamos que estamos prontos. As melhores ideias aparecem quando precisamos delas. Quando nossos recursos se esgotaram, quando aparentemente não há outras saídas e estamos no desespero.

É impressionante como a mente trabalha ao ser colocada à prova, e como arriscamos fazer coisas que não faríamos em condições normais simplesmente porque, no fundo do poço, não temos mais nada a perder. Nestas horas, passamos a considerar alternativas que teriam sido imediatamente descartadas em outras condições e elas acabam se tornando perfeitas.

Recomeço

A crise nos dá a oportunidade de recomeçar. Se tudo deu errado e seu negócio foi para o buraco, não fique triste: recolha os cacos, recupere o fôlego, erga a cabeça e tente de novo. O brasileiro é conhecido como um dos povos mais capazes de superar adversidades do mundo – não necessariamente por ser altamente capacitado, mas provavelmente porque não tem opção. Tem que se virar, tem que dar um jeito.

Se a crise te derrubou, você pode ter perdido muita coisa: dinheiro, família, amigos, autoestima. Mas uma coisa, com certeza, você também ganhou: um aprendizado pela experiência que nenhuma universidade seria capaz de te ensinar. Este valiosíssimo conhecimento vai te diferenciar perante outros empreendedores, ter tornar mais cauteloso, te deixar mais esperto e atento, fazer você não menosprezar detalhes.

E talvez isso seja tudo de que você precisava para se tornar um verdadeiro empreendedor. Portanto, não jogue esta oportunidade fora simplesmente desistindo. Se existe algo que todo empreendedor bem-sucedido pode falar com orgulho em relação à sua história, é a experiência de já ter fracassado na vida.

Data da última atualização: 29/08/2018


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Marcos Hashimoto

Professor de Empreendedorismo da Universidade de Indianapolis e co-fundador da Polifonia, escola de Protagonismo Criativo de São Paulo.


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