11/08/2016

É melhor ser conduzido ou ser condutor?

Carro e mapa

Uma vez, enquanto eu levava meus filhos para a escola, brincando, eles falavam para mim: “vira aqui, pai”, “agora vira aqui”, me direcionando no caminho que eles tão bem conheciam. Resolvi entrar na brincadeira e, como de praxe, desafiá-los com um jogo:

– Muito bem, vocês sabem então o caminho para a escola?

Com a esperada afirmativa deles, fiz a seguinte proposta:

– Então vocês vão me dirigir. Me digam onde virar e eu vou seguir exatamente suas instruções para a gente chegar na escola. Eu não vou fazer nada que vocês não disserem, ok? Mas, se vocês errarem, a gente vai se perder. Topam?

Eles ficaram um pouco apreensivos, mas toparam, pois tinham confiança de que, depois de tantas vezes fazerem o trajeto comigo ou com a mãe, dominariam bem o desafio. Começou então a aventura. “Vira aqui à direita”, “agora à esquerda”, “vai em frente” – e assim, me ditando as direções, ficavam extasiados por estarem no controle. Até que uma hora se confundiram e deram uma orientação errada. Na hora perceberam algo estranho e eu continuei seguindo suas ordens. Eles tentaram voltar, mas a rua fazia uma curva e ia para outro lugar. Preocupados, começaram a discutir sobre o que fazer, e assim fomos nos distanciando mais ainda da escola.

“Vamos chegar atrasados”, pensei, mas tudo bem: àquela altura da história não dava para interromper, pois uma boa lição estava nascendo. Eles começaram a brigar, colocavam a culpa um no outro, davam ordens desencontradas, e eu fui seguindo cegamente. Então eles pediram ajuda para mim e eu disse que só seguia as ordens deles. Bateu a preocupação: “estamos perdidos”. Logo perceberam e se deram conta de que nunca haviam estado naquela parte da cidade, não reconheciam mais nada.

No fundo, eu sabia que estávamos a não mais que três blocos do caminho correto, mas não quis interferir. Eu tinha controle da situação – mas eles, que estavam no comando, não. Sem saber o que fazer, começaram a se desesperar, um deles a chorar. E aí, então, eu deixei os dois se esgoelarem enquanto calmamente retomei o caminho. Logo chegamos à escola, para o alívio de todos.

Fiz essa brincadeira mais algumas vezes. Na vez seguinte, não quiseram brincar, mas eu falei que tinha gostado e que ia fazer de novo. Então eles começaram a prestar atenção no caminho, pois não queriam ser pegos de surpresa. Quando fiz novamente, eles acertaram; depois testei outros caminhos com eles e os dois aprenderam a prestar atenção em todos os trajetos, ficando com uma boa noção de espaço e distância.

Mas o que interessa nesta história não é a brincadeira ou o aprendizado sobre noção espacial – e sim o que aconteceu sobre o controle. Um dos motivos mais comuns que levam pessoas a decidirem abandonar seus empregos e abrirem um negócio próprio é a possibilidade de assumirem o controle sobre suas vidas, de não mais dependerem de um emprego, trabalho chato, chefes intolerantes e salário baixo. Ter um negócio próprio é assumir as rédeas de sua vida, do seu futuro, ser o principal responsável pelo seu sucesso. Um apelo muito convidativo, sem dúvida alguma.

O problema são as implicações desta tão propalada autonomia do empreendedor. Um dos temas mais estudados em empreendedorismo é justamente o loco de controle, a capacidade do empreendedor de tomar decisões sobre o seu negócio e exercer sua autonomia. A maioria das pessoas anseiam pela liberdade, mas não estão preparadas para assumir responsabilidades sobre sua decisão.

Assim como meus filhos se desesperaram com uma decisão errada sobre algo grande e importante como o caminho a ser adotado pelo carro em que estavam, empreendedores também podem tomar decisões erradas sobre os rumos tomados por seus negócios. Às vezes descobrem rapidamente e retomam o caminho; mas quando o caminho é novo para todos, uma decisão errada pode ser fatal. E para o empreendedor de primeira viagem, com seu primeiro negócio, o caminho é sempre novo.

Pode ser uma contratação errada, um crédito a um cliente que não deveria ter sido concedido, um fornecedor desqualificado, uma dívida contraída, um imposto não pago, um concorrente ignorado: um milhão de coisas têm chance de dar errado em um novo negócio por uma decisão equivocada do empreendedor.

A saída? A mesma que salvou os meus filhos. Alguém com experiência suficiente no trajeto, que conheça o caminho e saiba para onde ir, que perceba quando as coisas saírem do controle e consiga orientar as crianças, acalmá-las e dar novas orientações para retomar o caminho. Para o empreendedor, um mentor, conselheiro ou consultor tem esse propósito. Alguém com mais conhecimento, que já tenha tido um negócio próprio, já tem algo para compartilhar.

Outro paralelo que podemos tirar como lição está no momento em que deixei meus filhos se perderem controlando o carro. Eu poderia ignorar um comando que saísse do caminho, mas permiti que os dois errassem, pois o erro era controlado e não iria causar muito prejuízo. Da mesma forma, o mentor pode – e algumas vezes, deve – deixar o empreendedor errar em algumas decisões, quando ele sabe que a experiência do erro é muito mais valiosa do que evitar o erro, e principalmente quando o empreendedor está seguro do que acha que é certo. Brigar para tentar evitar decisões erradas pode ser bom para o negócio, mas não necessariamente será bom para a formação do empreendedor.

Bons mentores nunca deixam seu mentorado errar. Ótimos mentores controlam os erros que seus mentorados devem cometer.

Data da última atualização: 16/03/2018


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Marcos Hashimoto

Professor de Empreendedorismo da Universidade de Indianapolis e co-fundador da Polifonia, escola de Protagonismo Criativo de São Paulo.

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