07/08/2018

Liderança e arrogância

lideranca e arrogancia

Uma vez, tive um aluno chamado Danilo – um dos mais problemáticos que tive. Ele não era mau estudante, pelo contrário, era brilhante. E, exatamente por isso, se entediava facilmente.

Frequentava as aulas até o limite possível de faltas. Quando vinha, sentava-se no fundo. Ficava calado e bocejava, sem esconder o tédio de estar ali. Nesta época, eu já tinha mais de 10 anos de experiência docente e sabia que minha aula podia ser qualquer coisa, menos enfadonha.

Conversando com os demais alunos, descobri um pouco mais sobre o Danilo. Ele era o geniozinho da classe: muito inteligente e acima da média, mas isolado socialmente.

Ele não era chato – inclusive, quando ia às aulas, interagia muito bem com os colegas. Porém, nunca tocava em assuntos um pouco mais intelectualizados. Ele só queria se divertir e fazer piadas. O seu problema social era a falta de paciência com o despreparo dos colegas.

A dificuldade de interação

Então, compartilhei com meus colegas minhas impressões sobre o Danilo: todos gostavam dele, pois era frequentemente o melhor aluno, sempre com notas ótimas. “Uma promessa para o futuro”, costumavam dizer.

Para eles, o comportamento social errático não incomodava nem um pouco, pois já era esperado que os demais estudantes se sentissem intimidados e obscurecidos pelo seu brilhantismo.

“Bem” – pensei comigo mesmo – “aparentemente o Danilo é um problema apenas meu e vou ter que encontrar um jeito de lidar com a situação.”

Por que só meu? Porque eu usava com frequência trabalhos em grupo. Danilo estava acostumado com isso também (e não se importava), acabava fazendo a tarefa toda sozinho e os companheiros “ganhavam nota de graça”.

Eu sempre fui contra isso e, assim sendo, as atividades em equipe eram monitoradas por mim, de forma que cada um cumpria um papel previamente designado.

Foi desta maneira que sua dificuldade de interação social foi enfatizada. Sendo obrigado a se relacionar com os colegas e confiar neles, Danilo entrou em desespero. Brigava com os companheiros o tempo todo, exigindo deles o que não poderiam fazer.

Danilo estava bem à frente de todos e não tinha paciência de lhes explicar coisas básicas. Por seu conhecimento, assumiu naturalmente a liderança, mas ele não tinha perfil de líder. Não sabia ouvir, só queria se impor.

Intolerante, não considerava outras ideias e opiniões. Não conseguia se articular para explicar com detalhes o que esperava do grupo. Não via nada de bom nas contribuições dos colegas. Não tinha respeito e gritava com eles. No começo, os mesmos respondiam com paciência, porém, com o tempo, passaram a contestar com outros impropérios.

Deixando a história mais curta, no final, eles não se entenderam e não conseguiram entregar o trabalho no prazo. Tudo o que recebi foram reclamações uns dos outros e o pedido inclemente do Danilo para fazer o trabalho sozinho. Diante da minha recusa, ele não se conteve, e sua falta de respeito e arrogância vieram à tona na frente de todos.

O desabafo

Levantando a voz, e plenamente seguro de tudo o que dizia, Danilo manifestou sua insatisfação pelos meus critérios, enfatizando o quão brilhante ele era. Afirmou que atitudes de professores irresponsáveis (como eu) eram o motivo da sociedade estar perdida na obtusidade de pessoas mal qualificadas, que ocupam o espaço de quem pode realmente transformar o mundo.

Para mim, foi uma ótima oportunidade para exercitar meu autocontrole budista. Com muita calma e tranquilidade, fui deixando-o falar, enquanto articulava os meus pensamentos. Mantive o olhar fixo nele, deixando claro que eu o ouvia e entendia os seus argumentos.

Só pequei em um momento: deixei escapar uma risadinha, quando ele disse que trabalho em grupo era uma grande perda de tempo e talento – atitude que o levou ao enfurecimento.

Depois de seu longo desabafo, perguntei se havia terminado e comecei minha declaração com uma frase do advogado e político romano Cícero: “Toda arrogância é odiosa, mas a arrogância do talento e da eloquência é uma das mais desagradáveis.” E então esperei sua reação.

Danilo ia começar a retrucar, porém, logo percebeu que estava prestes a cair na armadilha de me reforçar, assim, se conteve e esperou o que mais viria.

Agora com a sua atenção, e sem me preocupar muito com a plateia ávida por uma bela briga à nossa volta, comecei a falar.

“Talvez, do alto do seu pedestal da inteligência e da perfeição, você não tenha percebido o principal objetivo deste trabalho em grupo. Você acha que é o resultado final, o conteúdo, o texto entregue, não é? Bem, isto é importante, mas não é o mais importante. O mais importante é a descoberta de si. Quem você realmente é.

Fiz uma pausa para ele pensar e tentar entender o que eu quis dizer. Pela sua cara, ainda não tinha entendido, como era de se esperar. Continuei.

“Na sua idade, eu era como você, Danilo, sempre tirava as melhores notas e me sentia tão autossuficiente que não ligava para os meus amigos. ‘Não preciso deles’, pensava. ‘Não preciso de ninguém’. Acredito pense assim também.” Não esperei ele concordar.

“Um dia fiquei doente. Uma gripe forte me deixou preso na cama por uma semana inteira. Eu nunca tinha ficado tanto tempo fora da escola. Faltar me deixou pior do que a doença em si, mas minha mãe era muito convincente, quando queria, e eu não tive alternativa senão amargar uma longa abstinência acadêmica na minha vida.”

Alguns alunos quebraram o silêncio com risadas tímidas.

“Quando voltei, precisei retomar a matéria, contudo, era tímido e orgulhoso demais para pedir aos professores. Apelei para alguns colegas e fiquei surpreso ao perceber que ninguém se predispôs a ajudar aquele que era o melhor aluno da escola. Eu simplesmente não entendia como podia ser rejeitado daquela maneira.”

“Eu me sentia desolado e achava que todo o meu mundo ia desabar, pois seria reprovado – o que não era verdade, porque as minhas médias eram mais do que suficientes. Só pensava no quão egoístas eram os outros, ignorantes, sem senso de cooperativismo, sem alma e coração.”

“Esta sensação me consumiu por vários anos, me levando a um maior isolamento. Só depois de muito tempo, comecei a entender o que realmente havia acontecido e por que todos se afastaram de mim. Finalmente me dei conta do que colhi naquela volta à escola: não foi nada além do que eu mesmo plantei. E você sabe exatamente do que estou falando.”

“Espero, Danilo, do fundo do meu coração, que o que está acontecendo agora seja um despertar de autorreflexão, que o ajude a ver o que eu levei tempo demais para perceber. Espero estar agindo como um instrumento para o seu autoconhecimento.”

“Eu sei que poderíamos simplesmente ter uma boa conversa sobre a importância do trabalho em equipe e da autodependência, mas sei que não adiantaria de nada. Quando estamos muito cegos, só existe um jeito de abrir os olhos – e este jeito é o mais doloroso.”

A lição

O silêncio na sala era consternador. Percebi que o Danilo se debatia dentro de si e senti seu conflito entre o que era o certo e o seu instinto. Contudo, não quis correr o risco, então, continuei minha argumentação:

“Danilo, sei que é difícil acreditar, mas ninguém é autossuficiente. Na escola, até é possível, porém, quando estiver progredindo na sua carreira, situações muito mais complexas aparecerão. Você terá que confiar nos outros, terá que acreditar em pessoas que não são tão capazes – vai se ver forçado a aceitar que o bom é melhor do que o ótimo.”

“Quanto antes perceber isso, menos sofrerá nesta jornada. Você pode ser um grande líder, pois já aprendeu desde cedo o valor da autonomia, da eficiência, da proficiência, da eloquência, da articulação, do conhecimento e do raciocínio lógico, mas, para transformar o potencial em realidade, ainda há muito que aprender.”

“Você precisa aprender o valor da humildade, da empatia, da colaboração, da comunicação, do olhar holístico, da importância dos erros em nosso aprendizado, do equilíbrio, da diversidade e dos sentimentos em qualquer coisa que fazemos.”

Essas eram para ser as minhas últimas palavras. Supostamente seguidas por um leve suspiro geral de alívio e regozijo de todos e por uma declaração apaixonada de agradecimento vinda do Danilo. Não foi o que aconteceu.

Ou minhas palavras soaram como elucubrações de um extraterrestre totalmente desconectado da realidade ou o choque foi tão grande que ele não soube como reagir. Tudo o que ele fez foi recolher suas coisas e sair em silêncio. Fiquei sem ação e perguntei aos demais o que achavam que havia acontecido. Muitos também não entenderam, outros pensaram que ele estava envergonhado demais para falar.

Ele nunca mais apareceu. Tive que reprová-lo.

Hoje reconheço que talvez eu tenha me enganado. A História está repleta de líderes bem sucedidos com QIs acima de 120, porém, arrogantes e orgulhosos. Não duvido que o Danilo seja um deles, assim como não duvido que ele tenha me ouvido e procurado se desenvolver melhor.

O que sei é que não me arrependo de tê-lo reprovado. Fiz o meu papel como educador e o faria novamente. É muito fácil ser um professor focado apenas nas qualidades acadêmicas dos nossos alunos.

Todavia, ser um educador consciente do seu papel de transformar mentes imaturas é muito mais difícil, mas é o caminho que escolhi.

Data da última atualização: 06/08/2018


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Marcos Hashimoto

Professor de Empreendedorismo da Universidade de Indianapolis e co-fundador da Polifonia, escola de Protagonismo Criativo de São Paulo.


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