22/11/2018

A jornada pode ser mais importante do que o destino

jornada e destino

Esta semana fui convidado para um churrasco na casa de um colega do trabalho, americano de Indiana. Embora não exista picanha neste país, os steaks são muito bons quando feitos na grelha e eu estava curioso para saber como é o churrasco daqui.

Minhas informações anteriores eram de que o americano só fazia salsicha e hambúrguer, mas aparentemente esse meu amigo era um especialista gourmet, pois outros conhecidos me falaram que o churrasco dele é fantástico, ou seja, as expectativas estavam bem altas.

Resumidamente, descrevo a seguir a receita infalível do assado perfeito dele:

  1. Separar quatro ribeyes (filés de costela) com três centímetros de espessura e mariná-los com meio vidro de Stubb’s Sticky Sweet por meia hora em plásticos ziplock;
  2. Ligar a churrasqueira a gás e esperá-la atingir 230 graus;
  3. Colocar os ribeyes no grill e tampá-los por cinco minutos. Depois virá-los, espetar um termômetro neles e fechá-los novamente;
  4. Esperar o termômetro apitar (quando a carne estiver ao ponto ideal: 60 graus);
  5. Desligar o grill, retirar os filés e servir.

Enquanto nos deliciávamos com aquele ribeye que realmente ficou muito bom, olhei o meu relógio e constatei que ficamos exatamente 12 minutos em frente à churrasqueira. O grill levou mais tempo para atingir a temperatura ideal do que para assar a carne.

No caminho de volta para casa, minha esposa me perguntou o que eu havia achado e confessei que não tinha uma opinião formada. O produto final era fantástico, mas eu não estava bem certo se era um churrasco de verdade, pelo menos na minha concepção.

Embora eu adore churrasquear, sou um mero amador. Todos gostam muito do meu preparo, mas dificilmente consigo fazer dois churrascos iguais. Em primeiro lugar, eu não uso gás: uso carvão, um material de combustão mais irregular, diferente no tempo para atingir a temperatura.

O tempero sempre varia de acordo com o que eu tenho em mãos no dia e carrega uma improvisação – que nem sempre dá certo. A carne difere também e sempre tem algo novo, até legumes e frutas. Nunca usei relógio, nem termômetro; meu olho e tato são o que me guiam (mas erro bastante nesse quesito).

Depois do que eu presenciei na casa do meu amigo, cheguei à conclusão de que não seria muito difícil fazer o churrasco perfeito. Procurei na internet e, com pequenas variações, encontrei receitas muito similares. Por algum motivo, eu não estava muito empolgado em segui-las no meu próximo churrasco. Por quê?

Eficiência vale para tudo?

O americano em geral é muito bom em buscar a eficiência em todos os tipos de processos. Do trabalho às tarefas de casa, da criação dos filhos a um churrasco – tudo tem um jeito perfeito de fazer as coisas, com centenas de vídeos no YouTube e blogs de especialistas. A receita do meu colega não é algo dele, apenas uma réplica aperfeiçoada por várias pessoas até chegar ao churrasco ideal.

Eu não tiro o mérito da eficiência. Graças a esses vídeos que eu consegui instalar um piso na minha casa, desentupir um ralo e montar um armário. Em muitos casos, não queremos errar e só nos importa o resultado final com o mínimo de erros e retrabalho. Mas será que essa regra vale para tudo? Vale para fazer um churrasco?

Um verdadeiro churrasqueiro tem prazer em churrasquear. Para as pessoas ao seu redor, você é bom porque proporcionou uma maravilhosa refeição, mas e para si? Você se julga ideal simplesmente porque soube seguir muito bem o passo a passo de uma receita que alguém criou?

E a autenticidade?

A minha paixão pelo churrasco não está apenas no produto final. Se as pessoas gostam do que faço, este reconhecimento apenas confirma o meu prazer pela tarefa. Nunca sentiria este mesmo prazer sendo o braço operacional de outros que construíram a churrasqueira e criaram a marinada perfeita, outros que calcularam o tempo e a temperatura ideal para grelhar um ribeye. Não seria uma satisfação autêntica.

A animação começa no dia anterior: quando vou ao supermercado para escolher o que vou servir no dia seguinte; quando olho as opções de carne e decido fazer uma maminha ao invés da picanha; quando ouso colocar mel e cerveja na minha marinada e deixo curtindo a noite inteira; quando me arrependo de ter trocado a marca do carvão porque esse demora mais para pegar.

Essa alegria se estende pelo churrasco, quando, cercado de amigos e tomando uma caipirinha, acabo me esquecendo de virar a linguiça e ela fica meio chamuscada de um lado. Minha paixão vai até o último minuto, quando aviso a todos para guardarem espaço para a sobremesa: abacaxi com canela no espeto.

Tenho absoluta certeza de que essas pessoas já comeram carnes melhores em outro lugar, até mesmo com o meu amigo americano, mas elas curtiram compartilhar a jornada comigo e deram risada das minhas maluquices.

Elas mastigaram com prazer o pedaço que ficou mais tostado e mentiram para mim dizendo que o pão de alho que resolvi fazer em casa ficou ótimo – quando, na verdade, estava seco demais.

Se eu seguir a receita perfeita, o produto final vai evidentemente ficar melhor, só que eu não terei o prazer de churrasquear.

Por que fazemos o que fazemos?

Qualquer coisa que fazemos na vida porque queremos, não porque precisamos, deve carregar esse mesmo sentimento apaixonado. Qualquer projeto, atividade profissional, hobby, voluntariado, estudo… se feitos com paixão, aprenderemos que o “fazer” é mais importante e prazeroso do que o resultado final.

Devemos buscar a eficiência e o caminho menos arriscado para atingir resultados, mas também precisamos saber que, para algumas situações, curtir e aproveitar a jornada é mais importante do que chegar ao destino.

É por isso que empreendedores e administradores são tão diferentes. Embora ambos conduzam negócios, o empreendedor carrega mais dessa paixão dentro de si. Tal sensibilidade de preparar um novo produto, compreender o cliente e resolver problemas é o que o enche de energia e o motiva todos os dias.

À medida que o aprendizado vai se estabelecendo e ele compreende o melhor jeito de satisfazer o público, basta então replicar esse processo e trabalhar para torná-lo cada vez mais eficiente – e é nesse momento que tocar o negócio se transforma em algo enfadonho.

É aí que o empreendedor sai de cena e contrata um administrador para tocar o projeto. Se o empreendedor decide continuar, aos poucos sua chama vai dando espaço ao rigor da gestão profissional.

E, por favor, não me entendam mal, não há nada de errado em se tornar empresário. Muitos empreendedores se cansam da vida turbulenta e optam por se estabelecerem. Achar a receita do steak perfeito é o “Santo Graal” de muitos.

Portanto, existe prazer em ambos os lados, você só precisa saber qual caminho trilhar: o prazer pela jornada ou o prazer de chegar ao destino final.

Data da última atualização: 03/12/2018


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Marcos Hashimoto

Professor de Empreendedorismo da Universidade de Indianapolis e co-fundador da Polifonia, escola de Protagonismo Criativo de São Paulo.


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