19/04/2018

Jazz e improvisação

Jazz, improvisação e empreendedorismo

Há duas semanas, estive em New Orleans atendendo à Conferência da Ibero Academy of Management. Entre uma sessão e outra, havia sempre espaço para uma caminhada pela French Square e, principalmente à noite, rodar pelos bares ouvindo boa música no berço do jazz.

Alguns shows eram meticulosamente preparados para os turistas, com piadas batidas e improvisações descaradamente arranjadas. Mas, quando você sabe onde ir, acaba descobrindo os verdadeiros artistas que estão lá por diversão – mais do que para ganhar dinheiro – e é então que a alegria encontra o talento.

Jazz e empreendedorismo?

A improvisação no jazz é uma das metáforas mais utilizadas em estudos e debates sobre criatividade. É o processo de criar espontaneamente novas melodias ao longo do ciclo contínuo de repetição e de mudanças nos acordes. A metáfora chega ao campo do empreendedorismo quando se discute o uso da criatividade para identificar oportunidades e improvisar diante da falta de recursos.

A comparação se torna mais forte ao relacionar uma orquestra (a grande organização) com a banda de jazz (pequena empresa nascente), sendo que apenas a primeira lê partitura, levando à crença – errônea – de que o jazz é desprovido de estrutura e regras.

O professor português Miguel Pina e Cunha, da Universidade Nova de Lisboa, fez um estudo sobre essa leitura equivocada da metáfora. Segundo ele, o jazz oferece uma combinação única de estrutura e liberdade que poderia ser aproveitada para proporcionar modelos organizacionais mais flexíveis. Podemos dizer que a banda de jazz é um protótipo de uma organização complexa, uma versão simples daquilo que ela se tornará no futuro.

Para entender melhor como esse processo funciona, lembre-se de como você aprendeu a falar. No início, você ouvia as pessoas e as imitava. Com o tempo, você começou a perceber alguns padrões, algumas regras básicas de gramática – só pela observação. Com a prática e, posteriormente, algumas aulas de Português, você foi aumentando o vocabulário e o seu conhecimento sobre a língua. Essa é a estrutura básica para falar qualquer coisa, mas o domínio da língua não significa que você vai dizer algo interessante. Para isso, você precisa de alguma dose de inspiração.

Do mesmo jeito na música, o conhecimento e os fundamentos são as ferramentas necessárias, mas a inspiração exerce o papel mais importante na criação de uma boa melodia. Como dizia o trompetista Clark Terry, o processo criativo em jazz se resume ao ciclo imitar, assimilar, inovar.

O erro como parte do processo

O guitarrista Steve Lacy diferencia a música composta da improvisada da seguinte forma: “Na música composta, você tem todo o tempo do mundo para decidir o que dizer em quinze segundos, na música improvisada você tem quinze segundos para resolver.”

Ao começar o seu projeto, você pode planejar o quanto quiser a sua implementação, mas o grau de incerteza é tão alto que muitos dos pressupostos que você assumiu se mostrarão equivocados. E, no final das contas, você terá que decidir na hora o que fazer – e é aí que entra a improvisação.

Essa natureza solta e descompromissada do jazz traz outros aprendizados. Observando as bandas tocarem, percebi que os músicos têm muito domínio sobre a técnica, mas também erram e não estão nem aí. Ao contrário da orquestra, o ambiente solto e descontraído do jazz faz o julgamento e a crítica diminuírem em favor da liberdade e da leveza da improvisação.

Se você não estiver disposto a aceitar o erro como parte do processo, não é capaz de improvisar. Outra coisa que percebi é que as bandas são sempre pequenas, de quatro a seis membros e, por isso, não existe uma liderança formal. Cada hora alguém assume o comando, ou dando o primeiro acorde ou dirigindo os demais só pelo olhar.

Também vi que cada integrante tem o seu próprio estilo, e a mágica da música acontece quando eles conseguem alinhar esses ritmos de forma harmônica e não planejada. Isto ficava aparente antes e depois de uma performance solo, pois o arranjo não se perdia e o desempenho individual estava sempre alinhado com a melodia.

Este equilíbrio entre o planejado e os toques improvisados requer, dos membros, muito domínio da técnica e empatia dentro da banda, de forma a facilitar a comunicação e os ajustes finos em tempo real.

Sem restrições

O neurologista Charles Limb fez um estudo com músicos de jazz e percebeu que a atividade cerebral mudava quando partiam para a improvisação. Os lobos pré-frontais laterais, responsáveis pelo automonitoramento consciente, diminuíam a atividade. Segundo o pesquisador, os instrumentistas estavam desligando a autocensura do cérebro para que pudessem gerar ideias inovadoras, sem restrições.

Esse intrincado processo só acontece porque os músicos já tocaram centenas de vezes determinada música e conhecem a melodia e o papel do seu instrumento. Enquanto os demais estão dando o ritmo da música, o solista pode variar a sua parte, indo para outras direções sem se desconectar do ritmo, de forma espontânea e seguindo seus instintos. O truque para a improvisação no jazz é tocar a melodia com criatividade, porém dentro de um contexto intencional.

Nos dias de hoje, uma grande dificuldade que temos é sair de um modelo estruturado de pensamento que o nosso sistema educacional forjou ao longo de toda a nossa existência. Há pouco espaço para aprender a improvisar, embora essa necessidade esteja presente o tempo todo.

Os cursos da Polifonia procuram quebrar o pensamento pré-formatado dos alunos, buscando os elementos que fundamentam a improvisação, a flexibilização, a exploração das individualidades e o trabalho em grupo, como em uma banda de jazz.

Como dizia o trompetista Wynton Marsalis, “No jazz, a improvisação não é apenas uma questão de fazer qualquer coisa. O jazz, como qualquer linguagem, tem sua própria gramática e vocabulário. Não há certo ou errado, apenas algumas escolhas que são melhores do que outras.

Espero que, nas suas resoluções, seus pensamentos não estejam voltados a fazer as escolhas certas, mas em fazer as melhores escolhas que puder diante dos recursos que tiver e das condições existentes.

Data da última atualização: 18/04/2018


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Marcos Hashimoto

Professor de Empreendedorismo da Universidade de Indianapolis e co-fundador da Polifonia, escola de Protagonismo Criativo de São Paulo.


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