17/07/2018

Como o excesso de informação está matando sua capacidade criativa

capacidade criativa

Quantas contas em redes sociais você tem e opera regularmente?

Acredito que no mínimo o Facebook e o LinkedIn para fins profissionais, além do Instagram, do Twitter e do WhatsApp para propósitos pessoais e, talvez, o Snapchat, certo?

E até que ponto você acredita em tudo o que as mídias trazem?

Veja dois fatos recentes, que colocam a veiculação de notícias pelas redes sociais nos holofotes, tornando minhas palavras hoje mais relevantes:

  1. O comediante Jim Carrey apagou sua conta do Facebook, porque acredita que essa mídia permitiu aos russos manipular as eleições americanas;
  2. O jornal Folha de São Paulo decidiu não mais veicular notícias no Facebook, apenas em seu próprio site.

Aparentemente estes fatos chamam a atenção para o que os sociólogos vêm descrevendo, desde a década passada, como o fenômeno do excesso de informação. Experimente googlar tal termo para ver o que a internet te traz.

Você ironicamente será atropelado pelo excesso de informação sobre “excesso de informação”: poluição e sobrecarga de dados, asfixia, ansiedade e síndrome da fadiga da informação, entre outras expressões.

Carência de informação

Para mim, não é difícil entender o fenômeno, afinal, faço parte de uma geração que sofreu muito pela falta de referências. No trabalho e na vida, tínhamos que tomar decisões importantes e não era possível googlar para saber onde achar um serviço, descobrir a reputação de uma empresa, encontrar o menor preço… nada.

Nossa carência de informação nos levou ao consumo desenfreado da mesma na virada do milênio. Tal ansiedade nos faz assinar todos os boletins, newsletters e feeds de notícias. Lemos todos os e-mails com medo de perder alguma informação importante.

A maior parte do que encontrei sobre o assunto fala sobre a forma como nos tornamos escravos do conhecimento, chamado de mal do século por Gilberto Dimenstein. Porém, poucos exploram o que quero tratar neste artigo: como o excesso de informação está matando nossa capacidade criativa.

Padronização dos conteúdos

Para explicar este ponto, convido-o a imaginar a seguinte cena: você acorda de manhã e lê seu jornal matinal. Vai trabalhar e, no caminho, ouve notícias no rádio do carro. Durante o dia, entra em portais a cada meia hora.

Chega em casa, assiste ao telejornal e não vai dormir antes de checar os últimos posts que chegaram no seu celular. Essa rotina soa familiar? Pois bem, ela é comum para muitos outros também.

Mais e mais pessoas seguem estes hábitos, com pequenas variações, mas acessando os mesmos canais de notícia e vendo os mesmos telejornais – resultando na comoditização da informação, na padronização dos conteúdos.

Quando todos têm acesso a informações semelhantes, consequentemente, começam a pensar da mesma forma. Por um lado, isso é bom, pois sempre há assunto nas rodas de discussão. É interessante se sentir a par do que as pessoas estão falando e poder contribuir em conversas sobre vários assuntos diferentes.

O problema da comoditização da informação é que os veículos de comunicação – a imprensa de uma forma geral – precisam se diferenciar de alguma forma em um ambiente de competição acirrada.

A facilidade de acesso instantâneo a qualquer informação faz com que seja cada vez mais raro um veículo deter um verdadeiro “furo” de reportagem, algo grande e inédito – o tal em primeira mão.

Opinião “mastigada”

Li um representante do New York Times comentar que uma das formas mais comuns destes veículos se diferenciarem é trazendo a opinião de especialistas. Assim, se passou um tufão na Flórida? Um meteorologista dá uma opinião técnica sobre o fenômeno.

Ocorreu um ataque de intolerância no Rio? Um sociólogo é logo convocado para falar sobre o tema. Foi aprovada uma nova lei para combater lavagem de dinheiro? Um advogado já está de plantão para comentar as implicações do fato.

Veja como são as coisas: se já não bastasse recebermos a informação pronta e processada, também nos deparamos com uma opinião “mastigada”. Muito cômodo, não é? Não é preciso manifestar o seu ponto de vista, basta se apropriar do que um especialista disse – e, no fim, você nem se dá conta de que a sua opinião na verdade não é sua.

Experimente fazer um teste. Da próxima vez que for assistir o seu time jogar na TV, desligue o som e assista apenas às imagens, sem ouvir os narradores e comentaristas.

Após o jogo, comente-o com seus amigos – posso garantir que você reparou em coisas que outros não viram e que sua visão foi no mínimo um pouco diferente. Isso se dá porque você não se deixou influenciar pelos narradores e trouxe a sua própria visão.

Tal situação pode parecer algo insignificante que não vai fazer muita diferença no dia a dia, afinal, você talvez nem goste mesmo dos comentários durante o jogo, não é mesmo?

Agora, experimente estender esta experiência para outros aspectos da sua vida: comece a “calar os especialistas” e desenvolva a sua própria opinião, baseada em suas vivências, seu conhecimento, seus valores e próprios ideais.

Na verdade, minha sugestão é que você vá além e busque variar também as suas fontes de informação, principalmente em assuntos controversos em que as opiniões se dividem naturalmente.

Perspectivas diferentes

Veja um exemplo de como a mesma informação pode variar, dando diversas interpretações sobre o mesmo fato: se você pesquisar sobre a recente prisão do Lula, vai encontrar sobre o fim da democracia no NYTimes, a trajetória da prisão no El País e como o ex-presidente assistiu a vitória do “timão” da cela no site El Mundo.

O mesmo fato com diversas perspectivas. A internet é um paraíso de informação e, por isso mesmo, deve ser usada em toda a sua plenitude. Uma das melhores formas de navegar é buscando fatos e opiniões contrárias ao senso comum.

Desta forma, você pode desenvolver um olhar isento sobre as coisas que acontecem, trazendo novas perspectivas, ângulos e, consequentemente, ideias diferentes das demais pessoas.

A médio e longo prazo, se você repetir este comportamento em outros contextos, como no trabalho, e de forma mais consistente, você começará a perceber e ver coisas que os outros não percebem, nem veem.

Desenvolverá um novo modelo mental e, assim, começará a ter diversas ideias sobre qualquer assunto – recurso fundamental para encontrar soluções criativas, insights inspiradores e mais momentos “ah-há!”.

Data da última atualização: 16/07/2018


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Marcos Hashimoto

Professor de Empreendedorismo da Universidade de Indianapolis e co-fundador da Polifonia, escola de Protagonismo Criativo de São Paulo.


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