Capital de giro (ou como matar uma empresa vendendo bem)

capital de giro de uma empresa que vende bem

Algumas coisas podem matar uma empresa. A mais óbvia é, evidentemente, se seu produto ou serviço não vende. Você capricha no visual do seu site, cria as categorias com carinho, faz propaganda no Instagram, no Facebook, mas… o negócio não vai para frente.

Talvez você tenha superestimado o tamanho do seu nicho ou não tenha notado que aquele pijama de bebê que você achou liiiindo não era tão atrativo assim. O fato é que, se não teve saída, não adianta reclamar que o consumidor “não entendeu” ou “não valorizou”.

Não existe isso. Se o produto não vendeu, você tem que checar se o seu público-alvo é o esperado e se seu produto ou serviço está adequado (algo que, na verdade, você deveria ter feito desde o início). O mercado é agnóstico.

Mas não é sobre isso que quero falar. Não é esse o nosso tema. Quero falar de um problema que vai acontecer quando tudo der certo.

Quando o negócio decola

Vamos lá: você montou uma loja de utensílios domésticos. Peças diferentes e bacanas. Ninguém tinha, até então, aquela chaleira de design super cool. Todo mundo gostou daquele seu relógio de parede estilizado.

E os adesivos de geladeira então?! Uau, estão vendendo como água! Aí seu e-commerce começa a bombar. Vender muito mesmo!

Você se gaba para sua cunhada, sua mãe está orgulhosa e seu pai, que achava que você estava brincando “desse negócio de ser empreendedor”, começa a ter pensamentos silenciosos antes de dormir, achando que vai se aposentar (ou ao menos que as férias estarão pagas).

E eis que surge um problema. Agora eu quero que você preste bastante atenção, pois vou fazer em bullet points (uma maneira chique de dizer “resumo linha a linha”) sobre esse raciocínio. Lá vai:

  1. Você começou o seu negócio com R$ 10 mil – foi esperto e abriu a loja na Nuvem Shop ao invés de pagar R$ 2 mil para o seu primo de Botucatu desenvolver o site do zero;
  2. Certo de que venderia muito, comprou R$ 5 mil em estoque (e guardou a mercadoria no quarto do seu irmão que não mora mais com você e seus pais). Tirou foto de tudo e subiu no seu e-commerce;
  3. Gastou mais R$ 3 mil em campanhas do Instagram e do Facebook. Não perca as contas: sobraram R$ 2 mil menos a mensalidade da loja online e a compra do domínio;
  4. Digamos que tenham sobrado R$ 1,5 mil e você começou suas operações. Ótimo! Não foi preciso pedir dinheiro emprestado para ninguém;
  5. Aí o negócio começa a vender e…. boom! Seus produtos são comprados em uma velocidade inimaginável;
  6. Assim, você precisa aumentar seu estoque, porque ele está se esgotando. Só que detalhe: você vendeu em “vezes” no cartão de crédito e a emissora só te pagará daqui 30 dias;
  7. Mesmo assim, você entra em contato com os fornecedores, mas eles te pedem um “sinal” (metade do valor total) e o restante daqui um mês;
  8. Para tudo! Aqui mora o perigo. E agora vou sair dos bullet points e voltar para o texto corrido.

Continuemos…

Sinal de alerta

Veja, você está indo bem, mas o dinheiro das suas vendas não entrou por completo e, ao mesmo tempo, é necessário comprar mais produtos. A situação poderia ser mais complicada se você tivesse que pagar aluguel e funcionários.

Além disso, não necessariamente o valor que será recebido pelas suas vendas “casará” com a data de pagamento dessas outras obrigações mensais, nem também poderá ser suficiente para pagá-las.

E agora?

Seja bem-vindo: você está com problema no seu “capital de giro”, também conhecido em inglês como working capital. Falta liquidez, dinheiro na mão, mesmo sabendo que em breve entrará mais (porque você está com um bom ritmo das vendas).

Então, o que pode ser feito? As opções são as seguintes:

  1. Usar o dinheiro que você tinha guardado e fazer alguns “malabarismos” (e se recuperar sozinho);
  2. Mostrar como sua empresa é promissora para seus amigos e convidá-los a serem sócios (e se salvar);
  3. Ao invés de convidar seus amigos a serem sócios, pedir dinheiro emprestado a eles a uma taxa de juros que não comprometa a rentabilidade da sua empresa (e se salvar com uma dívida extra);
  4. Pedir dinheiro emprestado para profissionais, ou seja, bancos ou factorings (neste último caso, as chances da sua empresa morrer por estar crescendo são, simplesmente, enormes!).

Veja, esse é um típico caso que o negócio corre o risco de vida – e a dificuldade não está no produto, no preço, nem no consumidor (que poderia não ser o target correto).

O problema é que sua empresa está vendendo muito e você não tem mais dinheiro para investir, nem convenceu seus familiares e amigos próximos a serem sócios ou emprestarem dinheiro a preços módicos.

Há, porém, uma maneira de escapar disso que não envolve nenhuma das hipóteses anteriores: chama-se gestão de caixa.

Interessado? Não quer morrer no meio do caminho? Falarei disso em breve, fique de olho!


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Danilo Amaral

Já foi advogado de M&A, CEO de companhia aérea, gestor de fundo de venture capital por anos e também lutador amador de boxe. Morou em Piracicaba, São Paulo, França e Nova York. Hoje rema canoa havaiana em Ilhabela, onde se tornou campeão brasileiro na categoria master. É pai da Eva e da Carmen e sortudo por estar casado com a Gabi. Além disso, adora ajudar empreendedores, mostrando a realidade de se montar um negócio e os obstáculos que precisam ser enfrentados (não se pode parar de remar!).


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