Autoconfiança e risco

Avião

O episódio com o avião do Chapecoense trouxe vários temas para debate e não posso deixar de trazer meus comentários sobre o comportamento do piloto diante da ameaça de pane seca. Eu mesmo já me vi parado na rua algumas vezes por confiar demais que tinha combustível para mais um pouco. Obviamente não é a mesma coisa, mas fico imaginando o que passa na cabeça do piloto ao tomar a decisão de se arriscar tanto.

Um dos elementos chave do risco é a incerteza. Quanto menos sabemos sobre um determinado tema, maiores são as chances de surgir uma ameaça que não esperávamos e, consequentemente, não termos uma ação planejada para lidar com a situação. Este não era o caso do piloto Miguel Quiroga que, embora com apenas 36 anos, foi piloto da força aérea boliviana e era dono da empresa aérea que levou a equipe do Chapecoense, a Lamia.

Outro elemento importante do risco é o impacto, ou seja, o que se perde quando a ameaça se concretiza. Justamente porque o impacto é grande (neste caso, 71 vidas perdidas), a aviação investe tanto em medidas de segurança como controles, verificações, testes e treinamento intensivo. Tanto isso é verdade que a maioria das causas de acidentes aeronáuticos não se devem a um único fator, mas a um conjunto de fatores que, combinados, levam à fatalidade.

Se Miguel sabia do risco, por que ele deliberadamente saiu com combustível no limite para o trajeto? Por que não parou para reabastecer? Por que não avisou a torre logo no início da aproximação que não tinha combustível? Fosse ele um piloto novato, provavelmente seguiria todos os procedimentos de segurança, inclusive as medidas preventivas para evitar a pane seca, e sobretudo em condições tão apertadas como essa. A experiência pode ser um fator negativo em certas ocasiões, pois tendemos a confiar demais em nossos instintos e negligenciar certas medidas que não achamos necessárias – a chamada “síndrome do excesso de autoconfiança”, que parece ter sido o problema de Miguel.

Empreendedores também podem ser assim. Quanto mais experientes, mais autoconfiantes eles são. Quando falamos repetidamente que o empreendedor precisa ter autoconfiança, muitos acabam confundindo as coisas e exageram em suas crenças sobre si mesmos. Isso se reflete de várias formas no negócio: “o dinheiro vai dar”, “o cliente vai adorar o produto”, “o banco vai aprovar o financiamento”, “a encomenda vai ficar pronta a tempo”, “meu sócio não vai me deixar na mão”.

Quando as coisas não saem como o planejado, muitas vezes o empreendedor sequer admite que errou em suas previsões: é sempre fácil achar um culpado diferente. E o pior é que ele não tem chefe para se justificar, portanto, está enganando a si mesmo.

Também é o excesso de autoconfiança que afeta nossa autopercepção e, consequentemente, nossa capacidade de avaliar riscos. Alguns dos problemas decorrentes do excesso de autoconfiança são contornáveis, mas outros podem levar ao fracasso do negócio. Ele pode ser uma doença para o empreendedor e seu negócio se não for devidamente tratado.

Se nossa autopercepção está afetada pelo excesso de autoconfiança, como sabemos que temos este problema? A melhor forma é observar o que as pessoas falam ou pensam sobre você. Pessoas com excesso de autoconfiança tendem a não ouvir os outros ou, se ouvem algo diferente do que esperam, ignoram e tentam se defender, sempre buscando argumentos plausíveis que mostrem que estão certas.

O empreendedor precisa saber ouvir e procurar sinais de que ele precisa mudar. Se uma pessoa fala algo sobre você, você pode até ignorar, mas se mais de uma pessoa fala a mesma coisa, tenha a certeza de que tem algo sobre si mesmo que você precisa conhecer e mudar.

O processo de autoconhecimento é um dos mais importantes na formação empreendedora. Quanto mais você souber sobre si mesmo, melhores serão suas decisões e mais eficazes suas ações empreendedoras. Existem várias formas de aprimorar o conhecimento sobre quem você é, suas forças, fraquezas e potencialidades. Da terapia ao coaching, de testes psicológicos a cursos de autoconhecimento: todas são importantes para dar uma ideia ao empreendedor das suas zonas de conforto e domínio.

Para continuar ilustrando meu ponto, vamos pegar outro exemplo da aviação – antigo, mas que se tornou recente com a última produção do brilhante diretor Clint Eastwood. Atualmente em cartaz nos cinemas brasileiros, o filme chama-se “Sully”. O ótimo Tom Hanks interpreta o piloto Chesley Sully que se viu obrigado a fazer um pouso forçado assim que decolou do aeroporto de La Guardia em Nova York em 2009 – uma história real. Ao perceber que perdeu os dois motores em um encontro com pássaros, ele viu que não conseguiria voltar ao aeroporto e resolveu pousar no rio Hudson, que margeia a ilha de Manhattan. Seu gesto salvou 155 pessoas.

Sully deveria ter seguido os procedimentos de segurança: qualquer simulador de voo, com os mesmos dados que ele tinha na hora, indicaria que daria para voltar ao aeroporto. Mas, se ele tivesse obedecido ao procedimento padrão, provavelmente todos teriam morrido. Sully demonstrou que o simulador não prevê o tempo que o piloto leva para tomar a decisão de voltar e provou que sua medida – arriscada, mas baseada em mais de 40 anos de aviação – era a única possível.

De novo temos a experiência e a decisão de ir contra as regras e assumir um risco altíssimo, só que desta vez o final foi feliz para todos. Ambos os pilotos tinham igual confiança em si mesmos de que estavam tomando a melhor decisão.

A responsabilidade de ter dezenas de vidas em suas mãos pode ser insuportável para a maioria das pessoas e, obviamente, nenhum risco que o empreendedor corre se compara à perda ocorrida com o acidente aéreo do time de Chapecó. Mas quem empreende também assume muitas responsabilidades: são clientes que dependem de seus produtos, fornecedores que dependem de seus pagamentos, funcionários e suas famílias que dependem de seus salários.

O empreendedor não pode ser inconsequente a ponto de deixar seu negócio fracassar devido à cegueira causada pelo seu excesso de autoconfiança. Ele tem que saber quando confiar nos seus instintos. Precisa entender que a diferença entre ser Miguel e ser Sully é muito sutil, mas a distância que separa o sucesso do fracasso também pode ser muito pequena.


O que você achou desse conteúdo?


Marcos Hashimoto

Professor de Empreendedorismo da Universidade de Indianapolis e co-fundador da Polifonia, escola de Protagonismo Criativo de São Paulo.


    autoconfiana-e-risco