16/01/2018

A reveladora jornada por sua história de vida

alunos assistindo aula historia de vida

Esta manhã fui conversar com alguns alunos do ensino médio que fazem parte do projeto Starfish em Indianapolis. A Starfish é uma organização sem fins lucrativos que ajuda jovens em desvantagens econômicas a irem para a universidade e perseguirem sucesso profissional. A conversa informal, com uns 20 jovens, teve como tema a carreira empreendedora – o que foi muito revelador, pois o bate-papo me levou a perceber algumas coisas que eu não havia me dado conta antes.

Por exemplo, um dos indicadores que a Universidade de Indianapolis mais valoriza é o número de novos alunos da graduação, que são os primeiros de suas famílias a irem para a faculdade. Aparentemente é uma conquista muito importante, uma vez que, para os familiares, é sinal de que seu filho pode sonhar com uma carreira ao invés de apenas ter um emprego. O que eu nunca tinha me dado conta é que eu também fui o primeiro da minha família a ir para a faculdade e, apenas conversando com alunos, entendi a importância desse fato.

Bate-papo

Uma das perguntas que me fizeram foi como comecei a pensar de forma diferente sobre minhas perspectivas de carreira a ponto de achar que a universidade seria um caminho possível para mim. Embora ir para a faculdade sempre tenha sido um plano, resgatando minhas lembranças, me dei conta de que o normal era arrumar um emprego e sobreviver dele – essa era a perspectiva de vida entre os jovens da minha idade, no bairro em que eu vivi.

Acredito que devo a meus pais essa visão de possibilidades mais ambiciosas, eles sempre me incentivaram a me preparar para a faculdade, seja por meio do estudo (independentemente de ser em uma escola pública), seja por meio da poupança.

Desde que comecei a trabalhar com 14 anos (naquela época podia), tudo o que eu ganhava era para guardar para uma eventual faculdade. Ao contrário dos meus amigos que também trabalhavam, meus pais queriam que eu guardasse o dinheiro para estudar ao invés de ajudar nas despesas da casa. Era uma vida frugal, simples, mas suficiente para o que precisávamos.

Bem, no final, acabei indo muito além de ter um diploma. Provavelmente eu devo ter tido outros incentivos que me empurraram para frente, antes mesmo de aprender sobre empreendedorismo (isso só aconteceu em 2001 quando fui exposto ao ambiente empreendedor na competição de planos de negócios organizada pela Universidade do Texas).

Ainda aproveitando o embalo da curiosidade dos jovens sobre minha trajetória, acabei me lembrando de um marco significativo na minha carreira: minha demissão da Cargill, com 31 anos de idade, 13 anos de empresa, e uma esposa grávida de nossa primeira filha – foi minha primeira demissão.

Não preciso dizer que o mundo caiu para mim. Minhas certezas, minha autoconfiança, minhas crenças, minha autoimagem e meu orgulho. Em retrospectiva, acho que foi uma das coisas mais importantes que me aconteceram. A vida às vezes nos dá um chacoalhão para sairmos do marasmo, da rotina pessoal e profissional, para nos despertar para coisas que não estávamos percebendo.

Uma demissão, por mais dolorosa que seja, é necessária. Foi a época em que mais aprendi sobre mim mesmo, em que mais refleti sobre o futuro e que realmente me dei conta de que não existe nada assegurado, tudo é transitório. Se você não tiver a coragem de ter a iniciativa de mudar, alguém mudará por você, o que é bem pior.

Também falei sobre a decisão de deixar uma carreira promissora em uma multinacional para me dedicar à minha primeira startup, quebrar os paradigmas da educação superior – porque você acredita que pode fazer mudanças significativas -, além da coragem de mudar de vida aos 53 anos de idade para um país diferente e com cultura distinta, recomeçando ao abandonar a segurança de uma vida estável, mas congelada, por outra, incerta, porém cheia de possibilidades.

Golden Spiral

Você deve se perguntar se é preciso um grupo de alunos te fazendo perguntas para começar esse tipo de reflexão sobre sua própria vida ou se existe um jeito mais simples de realizar esse processo de autodescoberta. Na Polifonia, temos uma atividade muito interessante de autoconhecimento, conhecido como Golden Spiral.

Em um amplo espaço aberto, espalhamos pelo piso placas numeradas de 1 a 50, em formato de espiral, iniciando do número um ao centro. Cada participante, em ordem sequencial, começa sua jornada na Golden Spiral se posicionando sobre a placa número um e tentando se lembrar de tudo o que puder sobre o seu primeiro ano de vida, em silêncio. Depois passa para a placa dois e tenta lembrar de tudo de relevância com dois anos de idade, e assim por diante, até chegar na sua idade atual. Um por um, todos os participantes repetem o processo.

É comum, ao observar os participantes revendo suas jornadas, começarem a rir sozinhos ou a chorar do nada. Na segunda rodada, eles voltam ao espiral no ano em que algo relevante aconteceu e se reúnem em pequenos grupos para discutirem suas lembranças, enfatizando as melhores e as piores memórias e como elas podem ter influenciado as decisões que tomaram na vida até onde estão hoje.

O curioso é que sabemos de tudo isso, mas quando resgatamos as lembranças de forma consciente e as compartilhamos, seja nesse exercício de autorreflexão ou em outro qualquer, é que percebemos o quando crescemos e evoluímos, e não necessariamente por causa de estímulos positivos, mas também por meio de duras lições.

Convite

Tenha você mesmo essa experiência. Uma forma bastante agradável de fazer isso é revendo fotos antigas dos amigos e da família. Faça isso em silêncio, quando estiver sozinho e tranquilo. Não meça o tempo, fique o quanto for necessário. Tente imergir em suas memórias e faça perguntas a si mesmo sobre suas lembranças: por que tal evento aconteceu? Como foi sua reação? Como poderia ter sido diferente? Como o fato pode ter influenciado o que você acredita e defende hoje? Redescobrir isso agora muda algo em você? E assim por diante.

Muitas respostas sobre quem e o porquê somos assim, vem do nosso passado, das nossas experiências – nem todas você tem orgulho, mas todas foram válidas, pois fizeram de você quem é você hoje. Não podemos mudar o passado, mas aprender mais sobre você olhando para trás te ajudará a olhar para frente de uma forma mais otimista e mais segura.

Data da última atualização: 16/03/2018


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Marcos Hashimoto

Professor de Empreendedorismo da Universidade de Indianapolis e co-fundador da Polifonia, escola de Protagonismo Criativo de São Paulo.


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