21/08/2017

A certeza da incerteza

certezas e incertezas lâmpada em cima de um quadro de giz

Estou escrevendo este artigo de Atlanta, na Geórgia (EUA), onde acontece a edição anual de um dos mais importantes congressos acadêmicos de Administração e negócios do mundo, a Academy of Management. São mais de 10 mil participantes que compartilham seus estudos nas diversas áreas de negócio e administração por quatro dias intensos de trabalhos e reuniões.

Em meio a todas as apresentações e leituras de artigos, parei para refletir sobre a importância do conhecimento científico no avanço das técnicas e práticas das quais líderes e empreendedores se apropriam para melhorar a gestão de seus negócios. E cheguei à triste conclusão de que talvez estejamos fazendo mais mal ao mundo do que bem com nossos estudos.

Os questionamentos

Veja, por exemplo, um estudo publicado no portal UOL recentemente: Maioria das mulheres entre 18 e 24 anos se considera feminista. O estudo foi feito pela agência de mídia UM London e se baseou em mais de duas mil entrevistas no Reino Unido. Você lê a matéria e, por diversos motivos, mas principalmente por ser um estudo feito por um instituto de pesquisa, acredita nestes resultados e assume-os como verdade.

Bem, nós acadêmicos temos uma série de questionamentos sobre essa tal “verdade” e, para ter certeza de que a pesquisa é realmente um retrato da realidade, precisamos perguntar: mas quem exatamente foi entrevistado? Onde estas entrevistas foram feitas? Que perguntas foram feitas? Qual foi o objetivo do estudo? Dependendo das respostas destas e de outras perguntas, podemos desqualificar totalmente estes resultados.

Os paradigmas

Isso acontece o tempo todo, seja baseado em uma pesquisa acadêmica ou um estudo não acadêmico: assumimos como verdade muito do que ouvimos. Estas verdades se tornam nossos paradigmas, nossas convicções, nossas crenças. Mas não me entendam mal, paradigmas são bons porque retratam padrões na realidade em que a sociedade se baseia para definir suas regras de convivência.

Assim, existem os paradigmas de que precisamos: andar vestidos na rua, que não devemos matar, que precisamos trabalhar para ter dinheiro para sobreviver, que existe uma unidade da sociedade chamada de família e assim por diante. Sem os paradigmas nossa vida seria um caos.

A paralisia

Quando falo que muitas destas verdades que se tornam nossos paradigmas podem estar fazendo mais mal do que bem, me refiro a um lado ruim do paradigma, que é a chamada “paralisia de paradigma” – quando acreditamos que uma verdade é a única e incontestável verdade que existe.

Por muitos anos, acreditamos, devido a estudos científicos, que o sistema solar era composto por nove planetas, mas são oito. Acreditamos que a matéria assume três estados – sólido, líquido e gasoso – mas isso não é verdade, existem estados intermediários além destes. Acreditamos que as cores primárias são o vermelho, o amarelo e o azul, mas na verdade são o ciano, o magenta e o amarelo.

O contraponto e as invenções

As verdades absolutas definiram muito do que somos, mas se estivéssemos presos a elas, nossa sociedade nunca avançaria. Ninguém mais inventaria nada em 1899 porque Charles Duell, chefe da Secretaria de Novas Patentes dos EUA, disse que seu departamento poderia ser fechado, pois não existia mais nada para ser inventado.

O cinema não seria o que é hoje, porque seus inventores – os irmãos Lumière – achavam que seu invento não tinha nenhum valor comercial. Da mesma forma, a TV não teria o poder que tem hoje porque a revista Times publicou um artigo dizendo que o invento era interessante, mas a família americana média não teria tempo para ficar horas em frente ao aparelho.

A autoavaliação

Vamos fazer um exercício mais prático para você entender o meu ponto de vista. Pense em uma verdade incontestável, algo em que você acredita cegamente, como: “chia faz bem para a saúde”, “pessoas ricas são mais felizes”, “se eu tomar banho à noite, durmo melhor”, qualquer coisa. Sua verdade incontestável não precisa vir de um estudo ou de algo que você leu ou ouviu, pode ser baseada apenas em suas próprias crenças e experiências pessoais, mas já é suficiente para gerar um estrago na sua vida.

Como saber se é uma paralisia de paradigma que pode estar atrapalhando você? Existem vários testes, mas o mais fácil e clássico é descobrir se outras pessoas pensam diferente de você. Se você acha que fica bem de barba e todos à sua volta, amigos e família falam que não, talvez seja uma paralisia de paradigma sua.

Se você acha que puxar o saco do chefe aumenta suas chances de promoção, mas todos os seus colegas aconselham você a não ir por este caminho, pode ser uma paralisia de paradigma te levando a tomar decisões erradas. Em outras palavras, a paralisia de paradigma é a sua teimosia em não aceitar o que todo mundo diz, não ser flexível o suficiente para assumir que você pode estar errado no seu jeito de pensar e no seu jeito de fazer as coisas.

As ressignificações

Assim como estudos científicos podem estar errados, suas crenças pessoais podem estar equivocadas. Ou podem ter feito sentido no passado, mas agora a realidade é outra e você precisa mudar o seu jeito de pensar. Paralisias de paradigmas nos impedem de fazer mudanças significativas, nos prendem ao passado, limitam nossa capacidade de inovar e travam o nosso crescimento pessoal.

Quando aprendemos a identificar nossas paralisias de paradigmas aprendemos que nossas mais absolutas verdades e crenças podem ser questionadas e que não existem verdades incontestáveis. A única verdade incontestável que existe é que não existe verdade incontestável.

Data da última atualização: 16/03/2018


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Marcos Hashimoto

Professor de Empreendedorismo da Universidade de Indianapolis e co-fundador da Polifonia, escola de Protagonismo Criativo de São Paulo.


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